Análise – Feitiço do Tempo
1 – Se você nunca viu Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993) só sinto pena. Faça um favor a si mesmo e vá ver.
2 – Contém spoilers.
A princípio Feitiço do Tempo pode parecer uma mera comédia romântica. Em um nível mais profundo é um filme que fala sobre a vida, Deus, como nossa relação com os outros tem haver com a maneira como vemos o mundo e karma.
Phil Connors (Bill Murray) subitamente se encontra sem um amanhã. O dia 2 de fevereiro se repete várias e várias vezes, não importa o que ele faça, sem qualquer explicação. Ele se desespera, não consegue acreditar que está preso em algum tipo de fissura temporal e procura um modo de quebrar o ciclo que se repete. Está completamente ilhado já que não pode sair de Punxsutawney porque as estradas estão bloqueadas pela neve, então sua área de ação se limita à cidade. Ajuda externa também é impossível e ninguém mais além dele parece notar que o dia está se repetindo.
Com o tempo, Phil consegue visualizar as vantagens de se repetir um dia. Não há punição. Ou se ela existe é apenas até o dia seguinte. Ele vai para a prisão, rouba um carro forte, dorme com diversas mulheres na cidade, dirige bêbado. E sempre acorda na cama de hotel independente do que fizer, sem ter que realmente enfrentar as consequências dos próprios atos. Phil experimenta uma liberdade negada a todos nós que fluímos junto com o tempo: ele vai recomeçar do zero e sem envelhecer um dia sequer. Impossível não se sentir um deus como ele mesmo menciona para Rita (Andie MacDowell).
Nem tudo são rosas. Aos poucos, Phil descobre que não tem controle sobre tudo. Primeiro ele não consegue realmente se conectar com Rita. Ele sabe tudo sobre ela nos mínimos detalhes: drink favorito, brinde preferido, sabor de sorvete que ela mais gosta, poetas que admira. Mas algo sempre deixa Rita com o pé atrás e por mais que Phil refine ainda mais seus conhecimentos sobre ela, no final ele sempre recebe um tapa depois de tentar algo mais ousado.
O que falta a Phil é deixar de enxergar os outros como meros fantoches ou seres que estão ali apenas para servi-lo. O fato de ficar repetindo os dias tirou ainda mais Phil a noção de humanidade. Ver as pessoas reagindo da mesma maneira e sabendo todos os seus segredos, não é difícil para Phil saber como manipulá-las e fazer daquela comunidade o seu playground pessoal. Rita é a esfinge, um dos dois pontos do filme que Phil não consegue resolver.
O fracasso na conquista de Rita leva Phil a se suicidar várias vezes (joga o carro do precipício, pula de um prédio, joga uma torradeira ligada na banheira) com o resultado sendo sempre o mesmo: acordar no quarto de hotel ao som de I Got You Babe de Sonny and Cher. É então que ele busca socorro naquela que o levou ao desespero inicialmente. Só se abrindo com Rita, que leva algum tempo a acreditar no problema dele, Phil passa a entender que relações humanas são vias de mão dupla. E que se você estiver em paz consigo mesmo, essas conexões se tornam naturais, mais simples e mais prazerosas. Se Phil já tentou as coisas pelo caminho mais cínico e não ficou satisfeito, por que não tentar a via mais otimista para tentar quebrar esse ciclo de repetições? Essa na verdade é uma ideia muito semelhante a da libertação do karma e da samsara, o ciclo de renascimentos do qual o indivíduo tenta escapar. Uma ideia budista e que exemplifica bem o quão espiritual esse filme pode ser. A vertente budista é mais óbvia, mas judeus, católicos e outras religiões podem encontrar suas filosofias no filme porque a essência de (quase) toda religião é aquilo que Phil começa a tentar fazer depois da conversa com Rita: se tornar um ser humano melhor para si mesmo e para os outros.
Ele passa a ver sua maldição como uma oportunidade, mas não no sentido de levar vantagem sobre os outros, mas para se aperfeiçoar. Ele vai aprender francês, piano, fazer esculturas no gelo e mais, vai aprender a como ajudar as pessoas ao invés de usá-las em seu proveito. Phil aprende a amar o próximo (um conceito cristão) e aprende a ser menos egoísta.
Aqui acontece outro momento chave do filme. Toda a filosofia que Phil passa a tentar a aplicar à sua vida é desafiada pela situação de um mendigo que ele encontra. O sujeito está a beira da morte e tudo que Phil faz para salvá-lo é em vão. No final do dia, ele morre. A frustração de Phil é enorme ao ponto de ele dizer que naquele dia ninguém deveria morrer. Esse é um ponto que fica sem solução para ele e um desafio à sua nova filosofia. O que esse momento significa para mim é que ser uma boa pessoa não significa que só coisas boas vão acontecer. Phil ainda tenta por dias salvar o mendigo, mas certas coisas estão além de nossas capacidades. Se Phil pensava ser um deus, nesse momento essa ideia se desfaz diante da impotência dele diante da situação. O fracasso e a tristeza também fazem parte do nosso crescimento interior.
Obstáculos no caminho não desviam Phil para o mau caminho. Então ele coloca em ação seus planos. É cordial com os colegas de trabalho, faz um belo discurso sobre o que significa a comunidade estar junta para o dia da marmota. Rita o chama para irem a algum lugar, a última tentação. Mas Phil está comprometido o plano e vai ajudar as pessoas. Salva um garoto que cai da árvore (apesar de ele nunca agradecer), ajuda velhinhas a trocar o pneu, salva uma pessoa que engasgou no restaurante, compra um pacote de seguros completo entre outras coisas. Phil encontra sua paz interior e consegue se relacionar com os outros quase sem egoísmo. Eu digo ‘quase’ porque não acredito que façamos algo sem esperar algo em troca. Mesmo que seja simplesmente um agradecimento ou uma boa sensação de dever cumprido. Phil fez tudo isso para crescer e quebrar o ciclo ou apenas para ficar com Rita no final? Isso é discussão para posts mais longos do que esse, mas eu gosto de acreditar que ele quis crescer e quebrar o ciclo e que se Rita viesse no meio do pacote não ia ser um mau negócio. Mas isso pode ser meu lado mais ingênuo falando.
Eu poderia aqui ter falado de como este é o melhor papel de Bill Murray, como a limitada Andie MacDowell faz uma boa atuação, recursos narrativos, etc. Mas Feitiço do Tempo é especial porque ele transmite uma mensagem batida de uma forma criativa: nos diz que há caminhos melhores para se trilhar do que o do cinismo e o da raiva. Já é um grande feito para um filme.
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